William Shakespeare  (artigo) escrito em sexta 19 outubro 2007 21:07

Citações

William  Shakespeare


— Devemos aceitar o que é impossível deixar de acontecer.

— Até mesmo a bondade, se em demasia, morre do próprio excesso.

— O cansaço ronca em cima de uma pedra, enquanto a indolência acha duro o melhor travesseiro.

— Vazias as veias, nosso sangue se arrefece, indispostos ficamos desde cedo, incapazes de dar e de perdoar. Mas quando enchemos os canais e as calhas de nosso sangue com comida e vinho, fica a alma muito mais maleável do que durante esses jejuns de padre.

— Ninguém poderá jamais aperfeiçoar-se, se não tiver o mundo como mestre. A experiência se adquire na prática.

— Se o ano todo fosse de feriados, o lazer, como o trabalho, entediaria.

— Ventre grande é sinal de espírito oco; quando a gordura é muita, o senso é pouco.

— Que é o homem, se sua máxima ocupação e o bem maior não passam de comer e dormir?

— Do jeito que o mundo anda, ser honesto é (igual) a ser escolhido entre dez mil.

— Hóspede oferecido (...) só é bem-vindo quando se despede.

— Um homem inteligente pode transformar-se num joão-bobo, quando não sabe valer-se de seus recursos naturais.

— Quem não sabe mandar deve aprender a ser mandado.

— A mulher que não sabe pôr a culpa no marido por suas próprias faltas, não deve amamentar o filho, na certeza de criar um palerma.

— As coisas mais mesquinhas enchem de orgulho os indivíduos baixos.

— Ninguém pode calcular a potência venenosa de uma palavra má num peito amante.

— Sábio é o pai que conhece seu próprio filho.

— Tem ventura fugaz, sempre periga, quem se fia em rapaz ou rapariga.

— Ser ou não ser... eis a questão.

— É estranho que, sem ser forçado, saia alguém em busca de trabalho.

—As mais belas jóias, sem defeito, com o uso o encanto perdem.

— O bom vinho é um camarada bondoso e de confiança, quando tomado com sabedoria.

— Nunca poderá ser ofensivo aquilo que a simplicidade e o zelo ditam.


William Shakespeare (1564-1616), o mais famoso dramaturgo e poeta inglês de todos os tempos, compôs suas peças durante o reinado de Elizabeth I (1558-1603) e de James I, que a sucedeu. Casou-se em  1582 com Anne Hathaway, que tinha 26 anos e estava grávida. O casal teve uma filha, Susanna, e dois anos depois tiveram os gêmeos Hamnet e Judith. Por volta do ano de 1588, mudou-se para Londres e, em 1592, já fazia sucesso como ator e dramaturgo. Mas, eram suas poesias — e não suas peças — que eram aclamadas pelo público. Em virtude da peste, os teatros permaneceram fechados entre 1592 e 1594, impossibilitando seu contato com o público. Publicou dois poemas, "Vênus e Adônis", em 1593, e "O Rapto de Lucrécia", em 1594. Estes dois poemas e seus "Sonetos" (1609), que tornaram-se famosos por explorar todos os aspectos do amor, trouxeram-lhe reconhecimento como poeta. Escreveu mais de 38 peças, que estão divididas entre comédias, tragédias e peças históricas. Seus escritos são famosos até os dias de hoje, e suas atuações trouxeram-lhe riqueza (ele era sócio da companhia de teatro). Shakespeare não publicava suas peças, já que a dramaturgia não era bem paga. Na época, não havia direitos autorais. O autor pretendia que suas peças fossem representadas em vez de publicadas.

Com o dinheiro adquirido na companhia teatral, comprou uma casa em Stratford-upon-Avon e muitas outras propriedades, tais como hectares de terras férteis e uma casa em Londres. Escreveu a maioria de suas peças entre 1590 e 1611. Por volta de 1611, ele aposentou-se em Stratford-upon-Avon, onde havia estabelecido sua família.

Shakespeare morreu em 23 de abril de 1616, no mesmo mês e dia tradicionalmente atribuídos como sendo de seu nascimento.


Algumas obras:

Comédias

A Comédia dos Erros

Os Dois Cavalheiros de Verona

Sonho de Uma Noite de Verão

O Mercador de Veneza

Muito Barulho Por Nada

Como Quiserdes

A Megera Domada

A Décima Segunda Noite.


Peças Históricas

Ricardo II

Henrique IV - Partes I e II

Henrique V

Henrique VI - Partes I, II e III

Ricardo III

Rei João

Henrique VIII.


Tragédias

Romeu e Julieta

A Tempestade

Júlio César

Antônio e Cleópatra

Hamlet

Othello

Rei Lear

Macbeth.


As citações acima foram extraídas do livro "Shakespeare de A a Z: livro de citações", L&PM Editores - Porto Alegre (RS), 2004, seleção de Sérgio Faraco, tradução de Carlos Alberto Nunes.

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Obras  (artigo) escrito em sexta 19 outubro 2007 21:12

William Shakespeare (1564-1616). O mais importante dramaturgo inglês. Seus textos mais conhecidos são Romeu e Julieta, Hamlet, A Megera Domada, Henrique V, Otelo, Rei Lear e Macheth.
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MEU AMOR  (Contos) escrito em sábado 20 outubro 2007 15:15

 Meu amor me disse não.

-Mas porque, meu amor?
- Porque chega.
- Chega de que?
- Não sou mulher de ficar dependendo de sentimento de homem.
- Como é que é?
- Isso mesmo que você ouviu.

Peguei meu amor pelos braços e forcei meu olhar nos olhos dela.

- Olha pra mim.... olha!
- Não quero...
- Mas como é que você me diz uma coisas dessas, assim sem mais nem menos?
- É o que eu tinha que dizer há muito tempo...
- E porque nunca disse nada?
- ... acho que eu sou uma bobona...

Meu amor tem a beleza de uma guerrilheira, seus olhos são tão expressivos que quase nunca necessita me dizer coisas, eu já as sei todas. Se fosse uma tela, seria uma pintura futurista, meio mulher, meio-bicho, um bicho de olhos amendoados e cintilantes. Se fosse uma música, seria bossa-nova, o violão de João Gilberto, a garota de cabelos lisos como nunca vi, olhar snob de quem nada quer... Meu amor chora por qualquer bobagem romântica e estava chorando naquela hora.

- Meu amor, o que eu posso dizer? Não gosta da minha brincadeira? Não quer mais as minhas palavras?
- As suas palavras nunca dizem nada...
- Mas dizer o quê, meu amor?
- Que gosta de mim, oras!
- Mas você sabe que eu gosto...
- Não sei de nada... você vive me dando um "chega pra lá"...

Meu amor tem um riso aberto, todos os seus dentes perfeitos se perfilam e compoem a mais linda beleza de mulher que meus olhos já entenderam.

- Eu sou muito brigona...
- Sei disso...
- Eu sou uma chata...
- Sei disso...
- Quero tudo na mesma intensidade em que eu dou...
- Eu sei disso e sei também que eu sou eu, sabe? Um eu assim, digamos , diferente do seu, que também tem sua intensidade, também deseja, essas coisas, né?
- Você nunca me diz que me ama...
- (ai, meu Deus do céu!)... mas, meu amor, será que eu preciso dizer que te amo? Se eu não gostasse de você você acha que eu estaria perdendo o meu tempo...
- Tá vendo... perdendo o seu tempo... "se eu não gostasse"... tá vendo?
- Você está brincando comigo, não está?
- Eu não...
- Peraí, você tá me gozando...
- Eu ? nunquinha !
- Você sabe que, de repente, eu estou me sentindo mal com isso... estou até suado...
- Porque? Isso acontece sempre na vida das pessoas, a gente gosta, o outro não, a gente fica se arrastando pelo outro, o outro não, daí a gente se toca com isso, o outro não... daí a gente se separa e vai cada um pro seu lado...
- ... e o outro não!
- Mas isso já está definido ... foi bom, sabe? Você foi muito importante pra mim...
- (isso não está acontecendo!)
- Pior é que está...

Meu amor quando briga comigo, fica uma fera, enjaulada no próprio discurso... sua respiração fica rápida e ela finge que tenta se controlar...

- Sabe de uma coisa?
- Eu não...
- Esse seu papo está me deixando cheio de ternura por você... sei lá... tô com vontade de te abraçar, abraçar... abraçar tanto, que vou fazer você sumir dentro do meu peito e te deixar lá dentro, aquecida, conhecendo o meu sentimento por você...
- Tá vendo? "meu sentimento por você"... que sentimento é esse que você nunca dá nome? Diz, diz pra mim, olhando no meu olho... qual é o nome desse sentimento?
- Você está radicalizando...
- Eu?
- Lógico, não foi você mesma que disse : vamos deixar rolar... se der muito bem, se não der não deu, sem heart fellings?...

Meu amor não gosta de ser pega pela palavra... ela se debate diante do óbvio e essa atitude tão feminina nela, me faz sentir mais ainda essa ternura que me deixa meio doente por dentro, como se eu estivesse fisicamente todo inflamado. Dentro do corpo todo calor e dores. Fora do corpo um suor gelado...

- Você extrapolou os limites...
- Que limites? Você não demonstra nunca qual o limite das coisas... tão sem sal, sem emoção...
- Você não está se dando conta de uma coisa?
- De que?
- Até agora, só quem chamou alguém de meu amor aqui fui eu... é, bebé! Só euzinho aqui, ó...
- Grande coisa...
- Como, "grande coisa!"...
- Você é ateu e vive dizendo "meu deus do céu!", "minha nossa senhora!"... isso é apenas costume, meu filho ,apenas costume...
- É , mas você sabe que quando eu digo "meu amor", pra mim, é como se eu estivesse dizendo sempre uma coisa nova, sempre a primeira vez?
- Conversa...
- Que conversa que nada, mulher! Só você se encaixou até hoje nesse jeito de falar meu...
- Que jeito?
- Ora... de dizer "meu amor"...(até acho uma frase ridícula, ora vejam só.... eu dizendo "meu amor"...) mas com você é diferente... eu acho que "meu amor" te cabe inteirinha dentro da minha emoção... foi feito pra você... EU INVENTEI PRA VOCÊ...
- Você já notou que toda vez que eu te aperto um pouquinho você vem logo com essas coisas?
- Que coisas, meu amor?
- Faz poesia com cada coisinha que eu digo... daí eu caio direitinho, como uma bobona que sou...

Meu amor se arruma no sofá, espalha o leque da saia nas almofadas e me olha. É um olhar tão doído que eu até sinto.

- Você não é uma bobona...
- Claro que sou... veja só: estou aqui ainda discutindo com você o sexo dos anjos... a coisa é essa, é simples... não deu, não deu... você me ajudou em muitas coisas mas foi só isso... não está vendo?
- Mas, meu amor, que diabos nós estamos fazendo, discutindo isso? Isso aconteceu de repente, assim? Quando foi que você teve essa brilhante reflexão...
- Eu não sou burra.... sou uma mulher forte, sabia? Já passei por isso tantas vezes (e ainda acho que vou passar) que mais uma ou menos uma não vai me matar...
- Eu estou ficando cansado desse papo, sabia?
- Eu já cansei faz muito tempo...
- É assim que você quer? Quer dizer, de verdade?
- É..
- E o que é que eu faço com esse sentimento que cresceu mais ainda nesses últimos minutos?
- Deixa ele quieto... você pode superar melhor do que eu...
- Assim você não está facilitando as coisas...
- E eu tenho que facilitar?
- ... nada, nada... isso é apenas uma imagem que eu estou usando...
- Ficou pensativo?
- Fiquei, meu amor, isso lá fiquei... Você sabe o que está fazendo comigo?
- E você sabe o que vem fazendo comigo?
- ... ... ...
- ... ... ...
- ... mas não faz nem quinze minutos que você me disse, "eu te quero"!!
- É. E faz também quinze minutos que você está me gozando, fazendo charminho, dizendo que é o gostoso...
- Mas isso é uma brincadeira, droga! Você sabe que eu faço isso o tempo todo!
- Porque é muito seguro , né?
- Mas seguro de que, mulher?
- De que eu estou apaixonada...
- E quem pode estar seguro de alguma coisa nesse mundo de hoje? Com outras palavras: quem disse a você que eu estou seguro de que você está apaixonada por mim... ademais, apaixonada por mim é meio forte, né?
- Forte? Forte? ... porque não? Eu posso olhar você de frente e dizer: "eu estou apaixonada por você!"... você, além de nunca ter dito nem sequer um décimo disso, nem sequer olha nos meus olhos, droga!
- Você acha assim?
- Acho.

Meu amor tem uma qualidade que me deixa desnorteado.
Ela tem uma voz forte e diz as coisas como quem crava uma estaca no coração.

- Você está tonta...
- Eu, tonta?
- Sim, você bebeu alguma coisa...
- E daí? Sempre bebi e nunca me arrependi do que fiz...
- É isso.
- Isso, o quê?
- Você está cansada, não está?
- Estou cansada sim, mas não é de bebida ou de não dormir não...
- Pois bem... vá dormir, descansar um pouco... amanhã a gente volta a conversar ... - O que eu tinha pra dizer eu já disse, não vou voltar ao mesmo assunto... tudo que se tiver de decidir, vai ser agora...
- ...
- Pois é, meu amigo...
- Nunca mais me chame de "meu amigo"! Da tua boca soa indecente, como quem quer distância...
- Porque ficar bravo agora?
- Mas isso parece loucura! Você está dizendo pra mim que me ama e quer me mandar embora... vê se tem lógica!
- ... ... ...
- Isso é ridículo... já amanheceu e eu estou aqui tentando acalmar essa fera...
- Fera ferida, meu filho.... ferida... e tem mais uma coisinha... não precisa ficar todo melindroso comigo não, viu?
- Melindroso?
- ... é. Com essa cara de...
- vamos pra cama?
- Eu?... nunquinha, meu filho...
- Então me dá um beijinho...
- Tem até graça...
- Olha que eu vou usar de força com você...
- Você nunca usou força comigo, não vai ser agora...
- Sem acordo?
- Sem acordo.
- É assim ? finito? Caput?
- Assim mesmo...

Meu amor cruza os braços sobre o colo e fica a espera do meu último movimento, minha última pedra . Afundei na poltrona da sala... o violão está numa estante muito alta e eu o vejo... vontade de tocar bossa-nova... de ter sono e sonhar.

Eugênio Pacelly Alves

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MOMENTOS  (Contos) escrito em sábado 20 outubro 2007 15:17

Nesse momento me encontro sereno.
Raios de sol fenestram a vidraça do poente, filhos rodeiam, com seus sons familiares - vozes que reconheceria mesmo amnésico - escapes tonitroam na distância e continuo sereno.
Essa serenidade me veio como um presente-surpresa, com brisa morna de verão, todos os fluidos do corpo aquietados, funções fisiológicas saciadas, o tempo goteja e eu nem ligo.
Sinto-me como em estado de fotografia.
Não é uma serenidade conquistada, como no relaxamento depois do gozo. Sinto-a como quem articula origames, detalhadamente, cada poro deitando fluxos, cada músculo ordenando movimentos sensatos, cada pensamento organizando-se em seus compartimentos e o sentimento, esse que às vezes me assuta, germina aceleradamente como o pé de feijão do conto.
Descrubro que é desses espasmos que nasce minha escrita, meu verbo reflexivo.
Faço releituras mais clarificadas dessa atitude e sinto que não me é dada uma escolha para manter a opção do silêncio, se há eco em mil vozes que me sintonizam no virtual de um espaço inventado.
Descubro que escrever, além do prazer orgástico , me amplia como indivíduo e, ao mesmo tempo, cobra de mim o preço alto da continuidade, da coerência.
Por quanto tempo poderá, aquele que escreve, ser um continuum assim, coerente?
Somos gerentes daquilo que é atávico?
Nesse momento, sem nenhuma concessão histriônica, sem nenhuma barreira estética, quero abraçar a toda humanidade que me resta - espaços, corpos, sentimentos...
Li hoje uma carta de Ariano (Suassuna) publicada num jornal. Pedia ele, encarecidamente, que lhe permitissem trabalhar em sua obra , que considera definitiva, um romance que vem perseguindo desde os seus 12 anos (conta hoje com 72 anos).
Nele explicava que, em suas atribuições de professor e ex-secretário de estado por Pernambuco, se havia enredado em muitos compromissos , entre palestas e aulas-espetáculo e que, havia percebido que havia cobranças poderosas nesse sentido e, ao continuar aceitando-as da forma como chegavam - em profusão - talvez não conseguisse reiniciar seu romance e conseguir concluí-lo ainda com vida.
A serenidade de Ariano. Permitir expor-se à malta dos inconformados, que irão crucifica-lo por isso.
O exercício lúdico da escrita , me passa nesse momento - sereno - como um saciar de sede, reflexo condicionado da manutenção da ordem do corpo. Meu filho me pede moedas, o outro se esconde no quarto. É a vida me pedindo atenção.
Devo desmergulhar de mim e jogar algum jogo novo. Também me dá prazer. Também me sacia.

 

Eugênio Pacelly Alves

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NOITE, NADA MAIS  (Contos) escrito em sábado 20 outubro 2007 15:18

João não tem mais sexo.
João está velho, nem enxerga mais direito, sente dores no peito, na coluna e nas pernas... não pesca mais João, apenas silencia diante do mar.
Maria mais ele.
Não há mais atrevimento nos olhos do homem João, nas mãos de garra que puxavam a rede... ele apenas fecha os olhos e sente o vento nas folhas, o sal no ar e o molhado das ondas, morrendo na planta dos pés.
Maria mais ele.
É doente, João.
Doença maldita, diz Maria mais ele.
Está velha Maria, a tez geográfica lembra que o tempo curtiu de sol e de vento seu corpo macio. Seus peitos não apontam mais para a lua, nas noites de candeeiro e luzes de estrelas.
João mais ela.
Maria... grande Maria... boa parideira, riso fácil para qualquer palavra de estranho, juntando a saia nos joelhos e chamando pra prosa qualquer pescador com noticias novinhas de aventuras do mar.
João mais ela.
João não procura mais por ela, para as coisas da noite que fazem suar, não tem mais o atrevimento de alisar suas coxas por baixo da mesa na hora da janta, já nem há mais janta... os meninos cresceram... Mas, no alto da noite, durante seu sono cansado, ainda procura Maria com a mão e se acalma.
João tem médico, toda Segunda.
Maria mais ele.
Se apressa Maria para confidências de médico, reclamações de João, que não come direito, que não toma remédio, que chora no sono profundo se tenta sonhar... João dói, diz Maria, com olhos pequenos. Maria carrega João pelo braço, pede licença , abre passagem... João está leve, pensa Maria, está leve demais...
João não diz nada. Nada pela dor física, pela limitação do corpo, pelo vai-e-vem das consultas, toda Segunda, nada pela saudade que sente intensa no meio do peito, saudade dos erros e acertos, saudade do jogo das ondas levando a jangada, ao gosto do mar. João não diz nada.
Maria mais ele.
Maria de ferro, de mãos grossas, mulher sem nenhuma palavra na boca, de desesperança... Maria , velha/criança, precisa ser fácil, ligeira, lembrar dos cuidados mais elementares no trato do homem, seu homem, seu irmão , seu pai...
João procura seus olhos, no meio das gentes que passam pra-lá e pra-cá, no mar da cidade. João não entende a cidade... é um mar revolto. Maria esquiva, covarde, seus olhos e apressa o passo, sabendo de tudo. Sua cadeira de vime, seu cachimbo de osso, seu chapéu de palhinha, seu cordão de pescoço com uma medalhinha de Nossa Senhora, sua janela entreaberta para os sons da noitinha, sua cachaça de pau velho... tudo a contento, na medida dele.
Maria nem sente mais calafrio, desejo escondido, molhação nas partes, quando sonhava um sonho atrevido. Maria nem sonha. Maria espera.
João mais ela.
Onde estão os meninos ? Maria algumas vezes se lembra, mas João nunca pergunta. Ele não lembra, diz Maria, ele nem está aqui... procura no escuro a espuma das ondas e o sentido do vento. João quer o mar. João quer correr, mas não pode, Maria não deixa, o tempo passou, João quer gritar mas desiste, Maria não chora, resmunga coisas antigas, descarrega em João coisas do passado, caladas no fundo, abraça João com a força intensa das mulheres que sabem amar...
A noite não perdoa e cai. João na cadeira de vime, olhar na janela. Maria na soleira da porta, respirando o vento e lavando as mágoas.
A noite mais eles.

Eugênio Pacelly Alves

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